Em março de 2023, um veículo elétrico pegou fogo em uma garagem coberta em São Paulo. Os bombeiros levaram mais de 2 horas para controlar o incêndio — não porque o fogo fosse grande, mas porque a bateria continuava realimentando a combustão internamente. Extintores convencionais foram usados, as chamas cessaram aparentemente, e o fogo retornou três vezes. A garagem ficou interditada por 18 horas.

O incêndio em bateria de lítio é quimicamente diferente de qualquer incêndio convencional. E essa diferença muda completamente o tipo de extintor, o protocolo de combate e o dimensionamento necessário.

Por que a bateria de lítio exige tratamento diferente

Thermal runaway — o processo físico-químico

Uma bateria de íon-lítio é composta por centenas de células individuais. Cada célula contém ânodo (geralmente grafite com lítio intercalado), cátodo (óxido metálico — NMC, LFP, NCA, dependendo da química), separador e eletrólito orgânico (solução de lítio em carbonato de etileno/dimetilcarbonato). Quando uma célula falha — por sobrecarga, dano físico, temperatura excessiva ou curto interno — ela libera calor acelerado.

Esse calor aquece as células vizinhas, que também falham e liberam mais calor — em ciclo autossustentado chamado thermal runaway (fuga térmica). As temperaturas internas podem ultrapassar 800°C. O processo libera gases altamente inflamáveis: monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos leves e fluoreto de hidrogênio (HF) — um gás tóxico gerado pela decomposição do eletrólito a alta temperatura.

A característica mais perigosa: o thermal runaway acontece de dentro para fora. O incêndio continua internamente mesmo quando a superfície parece extinta. Células que não entraram em colapso durante o incêndio inicial ficam em estado instável e podem colapsar horas depois — sem intervenção externa.

Por que PQS não resolve

O PQS (pó químico seco) age por inibição química da reação em cadeia da combustão — as partículas de fosfato monoamônico ou bicarbonato interrompem as reações radicalares na chama. No thermal runaway, a reação acontece dentro das células, em ambiente selado, onde o pó fisicamente não alcança. O PQS pode suprimir as chamas visíveis na superfície por alguns minutos — criando falsa sensação de controle — mas não interrompe o processo interno. A temperatura nas células continua subindo.

Por que CO₂ é insuficiente como solução única

O CO₂ resfria superficialmente (–78,5°C na descarga) e abafa por deslocamento de oxigênio. Mas a combustão no thermal runaway não depende de oxigênio externo — o eletrólito e os materiais das células fornecem o oxidante internamente. O CO₂ suprime as chamas visíveis por alguns minutos, mas quando a concentração de gás cai, o fogo retorna imediatamente. O CO₂ em espaços confinados também representa risco de asfixia para o operador a concentrações acima de 7%.

O risco de reignição horas depois

Este é o aspecto mais contra-intuitivo dos incêndios de lítio: o fogo pode parecer extinto e reacender 2 a 24 horas depois, sem intervenção externa. Protocolos do NFPA (National Fire Protection Association, EUA) recomendam que veículos elétricos envolvidos em incêndio permaneçam monitorados por no mínimo 24 horas antes de serem liberados. Garagens com EV envolvido em incêndio devem ser mantidas com vigilância contínua após o controle aparente das chamas.

Quais agentes funcionam em incêndio de lítio

Espuma AFFF — Aqueous Film-Forming Foam

A espuma AFFF (solução aquosa formadora de filme) é o agente mais amplamente utilizado em incêndios de lítio em nível profissional. A espuma combina resfriamento intenso (volume alto de água no agente espumante) com formação de filme aquoso que penetra melhor na superfície do que água pura. A aplicação em alto volume e de forma contínua por tempo prolongado é a estratégia padrão dos Corpos de Bombeiros europeus e americanos para EVs em chamas. Para bateria de veículo elétrico de porte médio (50 kWh), o resfriamento eficaz pode exigir 2.000 a 5.000 litros de solução espumante.

Sistemas de imersão em água para baterias isoladas

Em cenários de armazenamento (ESS — Energy Storage Systems), a imersão completa da bateria danificada em recipiente com água é a solução mais eficaz: submersa até que todas as células resfriem abaixo do ponto de reignição (tipicamente abaixo de 50°C). Impraticável em campo para veículos, mas é o padrão para depósitos de baterias e ESS estacionários. A NFPA 855 (referência americana para ESS) detalha os requisitos de sistemas de supressão para esses ambientes.

Pó Classe D — lítio metálico puro

O pó extintor Classe D (à base de grafite expandido, cloreto de sódio ou outros compostos) é eficaz em incêndios de metais reativos — incluindo lítio metálico puro. Para baterias de íon-lítio (que usam compostos de lítio, não lítio metálico), o Classe D tem eficácia limitada, mas é usado em laboratórios e ambientes industriais com células individuais.

O que não usar

Nunca use água pura sobre bateria de lítio em thermal runaway: a reação entre água e o lítio metálico exposto (em células abertas) gera hidróxido de lítio (LiOH) + hidrogênio (H₂) — risco de explosão. O PQS ABC deixa resíduo corrosivo e não atinge o thermal runaway interno. O CO₂ puro como solução única cria falsa sensação de controle.

Onde extintores específicos são obrigatórios ou recomendados

Frotas de veículos elétricos e híbridos

Empresas com frota de EVs ou híbridos plug-in devem incluir em seu plano de emergência equipamentos específicos para incêndio em bateria. Extintores de espuma AFFF de alta capacidade (mínimo 9 litros) ou sistemas fixos equivalentes nos pátios de estacionamento são a recomendação técnica consolidada. O plano de emergência deve também incluir protocolo de evacuação e monitoramento pós-incêndio por 24 horas.

Estações de carregamento EVSE e ESS

Estações de carregamento rápido (DC fast chargers, acima de 50 kW) representam risco acrescido por trabalhar com correntes elevadas. ESS — baterias estacionárias para armazenamento de energia solar ou de rede — acumulam grandes volumes de células e exigem sistemas fixos de supressão conforme NFPA 855. No Brasil, a IT 44 do Corpo de Bombeiros SP está em fase de atualização para incluir EVs e ESS.

E-bikes, patinetes e motos elétricas em condomínios

Baterias de e-bikes e patinetes são menores (0,3 a 1,5 kWh), mas o thermal runaway ocorre da mesma forma. Incêndios em estações de compartilhamento e bicicletários cobertos já foram registrados no Brasil. Para esses ambientes, extintor de espuma AFFF de 6 a 9 litros nos pontos de carregamento e nas estações de parada é a recomendação técnica. Condomínios com bicicletário coberto e pontos de carga devem incluir esses extintores no projeto PPCI.

Garagens com pontos de carga EV

Condomínios que instalaram carregadores de EV devem revisar o plano de extintores com responsável técnico. O PQS ABC instalado para a garagem convencional não é adequado para o risco adicional introduzido pelos pontos de carga. Recomenda-se extintor de espuma AFFF de 6 litros em cada cluster de carregadores, complementando o PQS ABC existente. Veja o contexto mais amplo no artigo sobre extintor de garagem: PQS ou CO₂.

Normas e situação regulatória no Brasil

O Brasil ainda não possui norma técnica específica para extinção de incêndios em baterias de lítio — lacuna em processo de revisão no âmbito da ABNT. Até a publicação de norma específica, as referências utilizadas por projetistas brasileiros são:

A ausência de norma específica não elimina a responsabilidade técnica do projetista e do gestor. Em caso de sinistro, a análise de responsabilidade considerará as normas internacionais disponíveis e o estado da arte da técnica aplicável no momento do evento.

Para o comparativo completo entre agentes extintores convencionais, veja o artigo sobre CO₂, Água ou PQS: qual extintor escolher.