Em um atendimento em Guarulhos, encontramos um extintor PQS que havia sido "recarregado" seis meses antes por empresa sem credenciamento INMETRO. O cilindro estava com agente empedrado — sinal inequívoco de umidade no pó, que ocorre quando o propelente é nitrogênio com teor de umidade acima de 60 ppm — e a pressão marcava 8 bar, bem abaixo do mínimo operacional de 13 bar exigido pela NBR 12962 para PQS ABC. A etiqueta era recente. Em um incêndio real, aquele extintor teria bloqueado na primeira descarga. O condomínio pagou pelo serviço e ficou completamente desprotegido.
Este artigo explica o que acontece em uma recarga tecnicamente correta, quando ela é obrigatória pela norma e como você identifica quando o serviço foi mal feito.
O que é recarga de extintor — definição pela NBR 12962
A recarga não é um procedimento isolado. Pela NBR 12962:2016 — Extintores de Incêndio: Inspeção e Manutenção, a recarga integra a manutenção de Nível 2 (N2), definida no item 5.2 da norma. A N2 inclui obrigatoriamente: despressurização controlada, inspeção interna do cilindro, substituição integral do agente extintor por material novo e certificado, verificação e substituição de peças, repressurização com propelente dentro da especificação técnica, teste de estanqueidade e emissão de laudo técnico assinado por Responsável Técnico com CREA.
Qualquer empresa que ofereça "recarga" sem inspeção interna do cilindro, sem laudo assinado por RT com CREA e sem ART do contrato está prestando serviço incompleto e inválido perante o Corpo de Bombeiros — independente do preço cobrado.
O que acontece durante a recarga — passo a passo técnico
1. Despressurização e desmontagem completa
O primeiro passo é a despressurização controlada do cilindro. Em extintores de PQS e AP, o propelente — nitrogênio (N₂) — é liberado através de válvula regulada até a pressão interna cair a zero. Em extintores de CO₂, o processo é diferente: o próprio dióxido de carbono funciona como agente e propelente simultaneamente, sob pressão de 60 a 75 bar a 20°C. A despressurização exige equipamento específico de contenção. Após a despressurização, a válvula é desmontada, o tubo sifão (dip tube) retirado e o cilindro esvaziado completamente.
2. Inspeção interna do cilindro
Com o cilindro aberto, o técnico inspeciona internamente com lanterna de alta intensidade: presença de ferrugem, depósito de agente aderido, corrosão por picação (pitting corrosion), integridade das soldas e estado da rosca do pescoço. Cilindros com corrosão interna generalizada, perda de espessura de parede ou deformação estrutural são reprovados — não podem ser recarregados e devem ser encaminhados para descarte ou teste hidrostático.
Esta etapa é o que distingue um serviço real de um serviço cosmético. Sem abrir e inspecionar o cilindro internamente, é impossível afirmar que ele está seguro para operar sob pressão.
3. Substituição do agente extintor
O tipo de agente define as especificações técnicas da carga:
- PQS BC (bicarbonato de sódio NaHCO₃): pó com teor de umidade máxima de 0,25% em massa (NBR 15524). Agente com teor acima desse limite deve ser descartado — nunca reaproveitado. O empedramento que encontramos em campo é consequência direta de umidade acima do especificado.
- PQS ABC (fosfato monoamônico NH₄H₂PO₄): agente mais corrosivo que o BC, exige inspeção interna com rigor adicional. A pressão de trabalho para extintores PQS é de 13 a 15 bar com propelente N₂ seco — conforme item 5.2.3 da NBR 12962.
- Água pressurizada (AP): 10 litros de água deionizada (nunca água de torneira, que contém minerais que precipitam e corrói internamente), pressurizada a 10–12 bar com N₂. Exige verificação do tubo sifão e das vedações da válvula.
- CO₂: a carga é pesada em balança calibrada (em kg, não litros). O peso define a quantidade — não a pressão — pois o CO₂ está em estado líquido-gasoso a pressões de 60–75 bar e temperatura ambiente. A temperatura de saída na descarga é de –78,5°C (sublimação direta do estado líquido para gasoso), o que gera neve carbônica visível.
4. Repressurização com N₂ certificado e teste de estanqueidade
Após a recarga do agente, o cilindro é repressurizado com N₂ grau técnico — nitrogênio com umidade residual máxima de 60 ppm. Nitrogênio comum de cilindros industriais pode ter umidade acima desse nível, o que contamina o agente PQS e causa o mesmo empedramento que a umidade ambiental. Este é um dos erros mais comuns de empresas que reduzem custo operacional usando N₂ industrial.
Em seguida, o extintor passa pelo teste de estanqueidade (NBR 12962, item 5.2.5): mantido à pressão de trabalho por 15 minutos com monitoramento do manômetro. Queda superior a 0,2 bar indica vazamento — a válvula ou o cilindro devem ser avaliados antes de liberar o equipamento para uso.
5. Laudo técnico, etiqueta e documentação obrigatória
A recarga só está tecnicamente concluída quando o extintor recebe a etiqueta com: data do serviço, data da próxima N2, nome e CREA do RT, número de credenciamento INMETRO da empresa e assinatura física do RT. O laudo técnico em papel — não apenas a etiqueta — é o documento de conformidade exigido pelo Corpo de Bombeiros. Sem ele, o serviço não tem validade legal.
Quando a recarga é obrigatória
A NBR 12962:2016, item 5.2.1, define dois momentos em que a N2 (que inclui a recarga) é obrigatória:
- Periodicidade anual: todo extintor deve passar pela N2 a cada 12 meses, contados a partir da última N2 ou da data de fabricação (para extintores novos, o primeiro prazo de N2 conta da data de fabricação gravada no cilindro).
- Após uso em qualquer ocorrência: extintor acionado, mesmo por poucos segundos, deve ser imediatamente encaminhado para N2. Um cilindro parcialmente descarregado tem pressão insuficiente para nova descarga eficaz e não pode ser recolocado na parede sem manutenção.
Extintores de CO₂ têm exigência adicional: pesagem semestral. Perda de massa superior a 10% da carga nominal exige recarga independentemente do prazo anual da N2.
Normas que regem a recarga
- NBR 12962:2016 — Extintores de incêndio: inspeção e manutenção. Define os três níveis (N1, N2, N3), os procedimentos de cada um e a documentação exigida.
- NBR 13485:2006 — Extintores de incêndio portáteis: requisitos. Estabelece os critérios de desempenho que o agente extintor deve atender após a recarga.
- NBR 15524 — Agentes extintores PQS. Define composição, granulometria e teor máximo de umidade para o pó.
Além das normas ABNT, a recarga só pode ser executada por empresa com credenciamento INMETRO vigente para o tipo específico de extintor — verificável no portal do INMETRO (inmetro.gov.br). Empresa sem credenciamento não emite laudo técnico válido.
Como identificar uma recarga mal feita — 5 sinais
- Etiqueta sem número de credenciamento INMETRO da empresa: o credenciamento é público e verificável. Sem ele, o serviço é inválido.
- Laudo sem assinatura e número CREA do RT: zelador ou técnico sem habilitação de engenharia não pode assinar laudo de N2.
- Manômetro fora do setor verde após a "recarga": extintor PQS deve marcar entre 13 e 15 bar em temperatura ambiente (20°C). Qualquer leitura fora dessa faixa indica pressurização incorreta.
- Peso do extintor CO₂ abaixo do especificado: verifique o peso gravado no cilindro (tara + carga) e compare com o peso real medido em balança. Diferença acima de 10% da carga indica subenchimento.
- Preço muito abaixo do mercado: recarga de PQS 4 kg abaixo de R$ 50 em SP quase sempre significa agente reutilizado, N₂ industrial com umidade excessiva, ou ausência de inspeção interna. O custo do serviço correto cobre mão de obra especializada, agente novo certificado, propelente N₂ grau técnico, peças e emissão de laudo.
Documentação que você deve receber após a recarga
Um serviço legítimo entrega obrigatoriamente:
- Laudo técnico impresso com assinatura e número CREA do RT (não apenas a etiqueta)
- ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) do contrato de manutenção
- Etiqueta colada no cilindro com todos os campos previstos no item 5.2.7 da NBR 12962
- Nota fiscal discriminada com CNPJ da empresa, tipo de extintor, número de série e serviço executado
Guarde todos esses documentos. Na renovação do AVCB, o Corpo de Bombeiros pode exigir o histórico de manutenção dos últimos anos — não apenas o mais recente.
Recarga ou substituição — quando trocar o extintor inteiro
Nem sempre a recarga é a solução correta. Em três situações, o extintor deve ser substituído:
- Vida útil esgotada: extintores de aço têm vida útil de 10 a 20 anos, conforme especificação gravada no cilindro pelo fabricante. Após esse prazo, a substituição é obrigatória independentemente do estado aparente.
- Reprovação no teste hidrostático quinquenal: cilindro com deformação permanente acima do limite tolerado pela NBR 13485 deve ser descartado.
- Danos físicos irreparáveis: amassados profundos no corpo do cilindro, corrosão interna avançada ou válvula com vazamento irreparável.
Entenda as consequências de não manter o extintor em dia no artigo sobre extintor vencido: riscos e multas. E para ver como o teste hidrostático se encaixa no ciclo de manutenção, consulte o artigo sobre teste hidrostático de extintores.